Dicas por Cidade


Polêmicas musicais do Pasquim

Entrevistas antológicas com grandes nomes da música são compiladas em livro

por Georgia Nicolau 06 de fevereiro de 2009
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Nássara

Sem censuras ou marketing, o livro “O Som Do Pasquim” reúne dez entrevistas com representantes da música nacional temperadas pelo humor ácido e inteligente que marcou o jornal. Sempre acompanhadas de biritas e polêmica.

Entrevistas em botecos, regadas a cerveja, uísque, caipirinha. E Fernet, como preferia Chico Buarque - “o chope é pra quebrar o Fernet que, sozinho, dá dor de barriga”, ensina o músico. Uma prática que talvez nunca mais aconteça. Nem iniciar uma entrevista com Agnaldo Timóteo perguntando se é verdade que o Ziraldo (cartunista e um dos entrevistadores) era seu guru.

A turma do Pasquim, semanário que se tornou um símbolo de jornalismo irreverente e politicamente incorreto, bem na época da ditadura, não perdoava ninguém, nem eles mesmos. A zoação tomava conta das entrevistas, e mesmo as mais infames das piadinhas eram transcritas.

O livro é publicado pela editora Desiderata, que também lançou duas coletâneas dos melhores momentos do jornal em 2007. A organização e o prefácio é de Tárik de Souza, seu antigo colaborador. É um registro de artistas que continuam até hoje escrevendo a história da música nacional.

Trinta anos depois, Roberto Carlos, Maria Bethânia e Ângela Maria não autorizaram a republicação de suas entrevistas.  “Arregaram”, diriam os entrevistadores.  Mas você ainda pode ler e reconhecer o jovem futuro político Agnaldo Timóteo xingando tudo e todos (o que o levou a fazer até uma retratação na nova edição), defendendo a ditadura, que aliás ele chama de “revolução”. Antonio Carlos Jobim dizendo que ele é apenas um “marginal que deu certo”, Caetano Veloso assumindo não ser um bom musico, Chico Buarque numa bebedeira geral, além de Luiz Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Martinho da Vila, Moreira da Silva, Raul Seixas e Waldick Soriano.

Em tempos de proibição de biografias, assessores, construtores de imagens e personais-tudo, é surpreendente ler entrevistas feitas totalmente fora do script. Sem pautas prévias, nada de formalidades obrigatórias. Gírias e coloquialismos liberados. Entrevistadores  como Jaguar, Ziraldo, Julio Hungria, Sergio Porto, Ivan Lessa, formadores de opinião que de fato tinham um ponto de vista sobre as coisas e não tinham medo de assumi-las.

Nada de “ todo mundo é bom, todo mundo é bacana”. Gongo é o que não falta nas entrevistas. Caetano foi o mais rebatido, por Moreira da Silva (“É uma porcaria, é um chato”), Aguinaldo Timóteo (Caetano não sabe cantar) e Waldick Soriano( “Não gosto desse gênero de música, pra mim não diz nada.”). Sobrou até para Roberto Carlos, que para o sambista Moreira da Silva foi um “otário que nasceu pra milionário.” Para ler  e  ficar saudoso do tempo em que artistas eram pessoas comuns, e a obrigação de agradar sempre ainda não reinava.

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